Editorial - #20 - Pai vinil, filho CD

30/08/2002 - por: Augusto Croppo - Acessos: 2.505

O conceito é velho, mas a discussão é nova. Na história, o homem sempre cria conflitos entre velhos e novos costumes. Não seria diferente para a cena eletrônica, que atualmente divide-se entre o uso do CD e do disco de vinil. Os velhos valores simbolizados no disco de vinil, atingidos pela influência capitalista, criaram preconceitos contra os novos valores por sentirem-se ameaçados de extinção. O novo sempre provocará o temor ao velho.

Junto a isto, alia-se a necessidade do homem idealizar sua vida para que ela torne-se importante. Alguns aproveitam esta fraqueza revestindo o preconceito com uma suposta roupa de atitude: “Fuck the CD! Real DJs play vinyl”. Os novos adeptos de uma cultura que estão conhecendo, aderem ao movimento sem ao menos refletirem qual a vantagem de um CD, não percebendo o verdadeiro objetivo por trás de tudo.

A realidade é que o CD e o disco de vinil têm vantagens e desvantagens e nenhum é melhor que o outro, pois isto depende de vários fatores. Usar um destes meios de transmitir música ainda permanece uma escolha profissional para qualquer DJ. Concluir que usar CD colabora para a extinção do disco de vinil é um erro irrefletido, de alguém que ainda não percebeu a diferença entre cultura underground e comercial.

O vinil sempre foi uma peça excepcional, dando “liberdade” para o DJ utilizar várias técnicas que o CD não permite. Além disto, a qualidade encontrada na reprodução do disco de vinil é muito melhor, pois opera de forma analógica levando as próprias vibrações da música para a caixa de som. Porém, a desvantagem encontra-se na sofisticação de peso, tamanho e resistência. Ao contrário, o CD é pequeno, leve e muito mais resistente se comparado com o disco de vinil. Além disto, armazena muito mais tempo de música de forma organizada, utilizando-se de várias opções do aparelho reprodutor. Mesmo assim, não oferece a “liberdade” que só o disco de vinil possui. Portanto, trocar um pelo outro depende de onde e para qual fim o DJ vai usá-lo.

No meio comercial, o uso do disco de vinil tornou-se obsoleto. Esta troca do disco de vinil pelo CD foi natural, pois supriu uma exigência dos próprios consumidores da música. Como poderia um DJ esperar semanas para tocar um lançamento europeu em disco de vinil, se na mesma semana já havia um álbum de CD com este lançamento disponível?

Assim o disco de vinil deixou de ser um meio de transmitir música, mas apenas na cultura comercial. Os DJs que valorizam um público fiel a seu estilo não precisam do CD, pois preferem carregar um peso nas costas para oferecer qualidade e técnica, ao invés de apenas escolher algumas música e tocá-las sem ordem definida. Utilizam o CD apenas como uma ferramenta, para experimentar músicas antes de serem lançadas em vinil ou presentearem o público com seus "sets".

Assim, o preconceito contra o uso de CD é infundado porque baseia-se no medo por uma coisa que não está acontecendo. DJs ainda compram discos de vinil (principalmente pela Internet) para mostrarem qualidade para seus ouvintes. Nenhum é ameaça para o outro, pois o uso de cada um ainda é um direito de escolha.

A melhor analogia para mostrar como o preconceito ao uso de CD não passa de um comportamento irrefletido é a literatura: desde que inventaram o livro, ele nunca desapareceu, pois ele tem características únicas. Podem inventar outros meios de transmitir idéias como Internet, revistas e multimídia. Mas nada vai substituir o prazer que se encontra na leitura de um livro. Com o disco de vinil não é diferente.

Preconceito ainda é um costume velho...

Augusto Croppo


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