Será
que já não estava na hora das empresas de venda de mídia
(gravadoras, produtoras e estúdios) pararem de gastar tanto dinheiro
com advogados e começarem a perceber que o tempo de explorar e ganhar
fortunas de seus clientes acabou?
Será que não percebem que não dá
para tapar o sol com a peneira? Estão se virando contra seus próprios
clientes. Quem baixa música na net é a mesma pessoa que compra
CDs, é quem ainda sustenta a indústria deles até hoje.
Que fique bem claro aqui, antes que os nervosos se rebelem
e não terminem de ler meu texto, que não apoio a pirataria
de nenhum lado. Nem das gravadoras, que esfolam seus clientes e artistas,
e que viraram impérios milionários. Nem dos usuários
dos programas P2P, como o Kazaa, que usam o produto alheio sem pagar nem
um centavo para quem o produziu. E veja bem, eu disse produziu. Sim, porque
o artista, quem de verdade produz a música ou filme, esse sempre
é prejudicado, nos dois formatos. Pela gravadora, que cobra taxas
infinitas de comissão para a produção e venda dos CDs,
e pela pirataria na net.
Será que ninguém consegue achar um modelo intermediário?
Um meio termo que agrade a todos?
Num estudo recente, publicado pela empresa de consultoria
KPMG, chegaram a conclusão que as empresas de mídia devem
parar de concentrar tantos recursos na proteção do conteúdo
digital para procurarem maneiras de ganhar dinheiro com música e
filmes digitais se quiserem derrotar a pirataria. Tem muita lógica!
A consultoria disse também que a responsabilidade por encontrar novos
modelos de negócios digitais cabe aos conselhos supervisórios
das empresas e não apenas aos executivos de escalão médio.
Com uma perda de receita estimada entre US$ 8 bilhões US$ 10 bilhões
ao ano, a questão deveria ser resolvida pelos dirigentes das corporações.
"O que não se vê é um questionamento
real dos modelos de negócios", disse Ashley Steel, sócia
da divisão de Informação, Comunicações
e Entretenimento da KPMG. "Eles se queixam dos Napsters", disse
ela, referindo-se ao extinto serviço de troca de música digital
condenado por violar leis norte-americanas de defesa dos direitos autorais.
"Mas por que os Napsters existem? Porque o mercado os quer?".
Desde que a expansão da tecnologia nos anos 90 alimentou
o esforço para colocar música, filmes, espetáculos
e livros na web, as grandes gravadoras, estúdios de cinema e TV e
editoras mundiais concentraram-se em criar software e hardware que impeça
as pessoas de copiar conteúdo digital ilegalmente e revendê-lo.
Totalmente sem sucesso. A indústria fonográfica foi a mais
atingida, com uma queda dramática nas vendas de CDs ao longo dos
últimos anos, enquanto os chamados serviços peer-to-peer na
web, como o Napster, no qual as pessoas trocam arquivos entre si, cresceram.
Até tentaram lançar sites de download pago de música
para combater a troca de arquivos, mas não conseguiram atingir seus
objetivos.
O resumo é que os executivos estão muito mais
preocupados em manter a chave do cofre segura do que agradar seu consumidor.
Se concentram mais em software de cifragem e outras tecnologias que bloqueiem
a pirataria em lugar de tentar encontrar caminhos para chegar antes dos
piratas à preferência dos consumidores.
Seria ótimo que a indústria da mídia
acordasse para o real problema, antes que o problema acabe com ela. Vale
lembrar o caso da indústria de vídeo doméstico, que
há 20 anos combatia piratas até encontrar maneiras de conseguir
lucros do vídeo, apesar da pirataria. Ofereciam produtos bons, por
preços justos. Resultado simples: acabaram com a pirataria.
Ronaldo Gasparian
Com dados de: KPMG/Reuters/Folha |