Editorial - #29 - Tudo por Dinheiro

23/02/2003 - por: Ronaldo Gasparian - Acessos: 2.169

Consumo, muito consumo, de preferência desenfreado. Lucro, o maior possível. Ah! Cortem os custos, rápido. Pessoas não...só consumidores, por favor. Qual seu sobrenome mesmo?

Já repararam que nunca se valorizou tanto o status, o dinheiro, a fama, o consumo e o superficialismo?

Vários acontecimentos essa semana me fizeram refletir sobre o tema. Primeiro, foi o episódio, repetido exaustivamente, de uma novela que já cansamos de assistir. A constatação que estamos mesmo, como disse Luciano Pires em seu ensaio publicado aqui, num processo para mediocrizar o Brasil. O conteúdo a ser veiculado não importa, desde que dê audiência, porque audiência chama patrocinadores e com eles o dinheiro. Viva o pocotó!

Num filme que assisti recentemente, que não direi o nome para não estragar a surpresa de quem ainda não assistiu, uma certa pessoa tinha que matar muitas outras, para entregar sua "cota" de mortos no final do mês. Coisa de filme, sem muito nexo mesmo, mas a mensagem era interessante: ao invés de sair matando todo mundo, o que daria um trabalho enorme ao assassino, ele simplesmente colocava um monte de dinheiro escondido num local, mas muito dinheiro mesmo, e esperava tranquilo as pessoas se matarem para ver quem ficava com o dinheiro. Ele, no fim, só tinha o trabalho de matar o último. Alguma semelhança com o programa Big Brother, exibido pela Rede Globo? Alguma semelhança com o trabalho dentro das grandes empresas? Tire suas conclusões.

Ultimamente temos ouvido muito sobre a possível guerra dos Estados Unidos com o Iraque. Numa pesquisa publicada pelo UOL, o presidente dos EUA, George W. Bush, representa para a metade dos britânicos a principal ameaça para a paz no mundo, enquanto a outra metade acredita que esse título corresponde ao presidente iraquiano Saddam Hussein. O que as 2032 pessoas que responderam a pesquisa no fundo provaram, é que ninguém de verdade sabe o que há escondido por trás dos motivos dessa guerra. Algum palpite? Será algo relacionado com dinheiro, poder?

Hoje vejo muitas pessoas buscando acumular riquezas, mesmo que a custa de uma vida sacrificada. Fazem tudo pela fama e poder, acreditando que assim viverão mais felizes no futuro. Esquecem do hoje, pensando no amanhã melhor. Acabam deixando até a saúde em segundo plano, que aliás acaba resguardada por um plano de saúde, que custa metade do dinheiro que ganham sacrificando a saúde...

Li na revista Veja, esta semana, a reportagem sobre um novo grupo de consumidores, os tweens: jovens pré-adolescentes de hoje, com idade entre 9 e 12 anos, que até recentemente, pertenciam ao vasto e indiferenciado mundo das crianças e, segundo o IBGE, são 13,5 milhões de brasileiros, mais que toda a população da Bélgica. Muito sabidos, bem informados, extremamente vaidosos, desenvoltos nas novas tecnologias e também vorazes consumistas. O mercado precisa buscar novos compradores, e, cada vez mais cedo, se estimula o consumo e a vaidade. Jovens precoces, que não produzem nada, mas que gastam como gente grande o dinheiro dos pais. Que tipo de valores você acha que eles terão como importantes no futuro? Mais uma vez, tire suas conclusões.

Isso tudo me lembra a velha história do pescador que é abordado por um importante e rico executivo em férias, à beira de um calmo rio, pescando com seus amigos e tomando sua cervejinha. O executivo observa o talento do pescador, que pega peixes sem parar, e sugere a ele que monte uma cooperativa de pesca, juntando assim mais dinheiro para depois montar uma usina de beneficiamento do peixe, e assim por diante até chegar numa mega-empresa, onde a custa de muito trabalho e dedicação, ele poderia faturar milhões de dólares por ano. O pescador pergunta ao executivo quanto tempo isso demoraria. A resposta vem rápida: 10 anos, se tudo der certo. Novamente a dúvida. Porque esse trabalho todo, todo esse sacrifício? E o executivo responde que assim, com muitos milhões de dólares no banco, ele poderia tirar uma semana de férias e ficar na beira de um rio, pescando e bebendo sua cerveja com os amigos...

Vivemos num permanente stress, preocupados com nossas obrigações e como acumular mais dinheiro. Nos preocupamos com a nossa aparência, com a imagem que os outros fazem de nós. Queremos ser produtivos e isso é saudável, mas a coisa toda parece que saiu do eixo. A produção virou secundária, atrás da meta da ostentação e da acumulação de bens. O bom serviço foi deixado de lado, em prol do aumento na margem de lucro. O foco na satisfação do cliente foi mudado para a meta do lucro máximo, o que vale é dinheiro na mão. Estamos vivendo num mundo descartável. Usou, joga fora e compra outro.

Não seria o caso de fazer uma parada pra pensar em tudo isso?

Ainda há tempo. Ainda é tempo. Sempre é.

Ronaldo Gasparian

Ilustração: Arte RadioDJ sobre caricatira de Gepp e Maia


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