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Consumo, muito consumo, de preferência desenfreado. Lucro, o maior
possível. Ah! Cortem os custos, rápido. Pessoas não...só
consumidores, por favor. Qual seu sobrenome mesmo?
Já repararam que nunca se valorizou tanto o status, o dinheiro,
a fama, o consumo e o superficialismo?
Vários acontecimentos essa semana me fizeram refletir sobre o tema.
Primeiro, foi o episódio, repetido exaustivamente, de uma novela
que já cansamos de assistir. A constatação que estamos
mesmo, como disse Luciano Pires em seu ensaio publicado aqui,
num processo para mediocrizar o Brasil. O conteúdo a ser veiculado
não importa, desde que dê audiência, porque audiência
chama patrocinadores e com eles o dinheiro. Viva o pocotó!
Num filme que assisti recentemente, que não direi o nome para não
estragar a surpresa de quem ainda não assistiu, uma certa pessoa
tinha que matar muitas outras, para entregar sua "cota" de mortos
no final do mês. Coisa de filme, sem muito nexo mesmo, mas a mensagem
era interessante: ao invés de sair matando todo mundo, o que daria
um trabalho enorme ao assassino, ele simplesmente colocava um monte de dinheiro
escondido num local, mas muito dinheiro mesmo, e esperava tranquilo as pessoas
se matarem para ver quem ficava com o dinheiro. Ele, no fim, só tinha
o trabalho de matar o último. Alguma semelhança com o programa
Big Brother, exibido pela Rede Globo? Alguma semelhança com o trabalho
dentro das grandes empresas? Tire suas conclusões.
Ultimamente temos ouvido muito sobre a possível guerra dos Estados
Unidos com o Iraque. Numa pesquisa publicada pelo UOL,
o presidente dos EUA, George W. Bush, representa para a metade dos britânicos
a principal ameaça para a paz no mundo, enquanto a outra metade acredita
que esse título corresponde ao presidente iraquiano Saddam Hussein.
O que as 2032 pessoas que responderam a pesquisa no fundo provaram, é
que ninguém de verdade sabe o que há escondido por trás
dos motivos dessa guerra. Algum palpite? Será algo relacionado com
dinheiro, poder?
Hoje vejo muitas pessoas buscando acumular riquezas, mesmo que a custa
de uma vida sacrificada. Fazem tudo pela fama e poder, acreditando que assim
viverão mais felizes no futuro. Esquecem do hoje, pensando no amanhã
melhor. Acabam deixando até a saúde em segundo plano, que
aliás acaba resguardada por um plano de saúde, que custa metade
do dinheiro que ganham sacrificando a saúde...
Li na revista Veja, esta semana, a reportagem
sobre um novo grupo de consumidores, os tweens: jovens pré-adolescentes
de hoje, com idade entre 9 e 12 anos, que até recentemente, pertenciam
ao vasto e indiferenciado mundo das crianças e, segundo o IBGE, são
13,5 milhões de brasileiros, mais que toda a população
da Bélgica. Muito sabidos, bem informados, extremamente vaidosos,
desenvoltos nas novas tecnologias e também vorazes consumistas. O
mercado precisa buscar novos compradores, e, cada vez mais cedo, se estimula
o consumo e a vaidade. Jovens precoces, que não produzem nada, mas
que gastam como gente grande o dinheiro dos pais. Que tipo de valores você
acha que eles terão como importantes no futuro? Mais uma vez, tire
suas conclusões.
Isso tudo me lembra a velha história do pescador que é abordado
por um importante e rico executivo em férias, à beira de um
calmo rio, pescando com seus amigos e tomando sua cervejinha. O executivo
observa o talento do pescador, que pega peixes sem parar, e sugere a ele
que monte uma cooperativa de pesca, juntando assim mais dinheiro para depois
montar uma usina de beneficiamento do peixe, e assim por diante até
chegar numa mega-empresa, onde a custa de muito trabalho e dedicação,
ele poderia faturar milhões de dólares por ano. O pescador
pergunta ao executivo quanto tempo isso demoraria. A resposta vem rápida:
10 anos, se tudo der certo. Novamente a dúvida. Porque esse trabalho
todo, todo esse sacrifício? E o executivo responde que assim, com
muitos milhões de dólares no banco, ele poderia tirar uma
semana de férias e ficar na beira de um rio, pescando e bebendo sua
cerveja com os amigos...
Vivemos num permanente stress, preocupados com nossas obrigações
e como acumular mais dinheiro. Nos preocupamos com a nossa aparência,
com a imagem que os outros fazem de nós. Queremos ser produtivos
e isso é saudável, mas a coisa toda parece que saiu do eixo.
A produção virou secundária, atrás da meta da
ostentação e da acumulação de bens. O bom serviço
foi deixado de lado, em prol do aumento na margem de lucro. O foco na satisfação
do cliente foi mudado para a meta do lucro máximo, o que vale é
dinheiro na mão. Estamos vivendo num mundo descartável. Usou,
joga fora e compra outro.
Não seria o caso de fazer uma parada pra pensar em tudo isso?
Ainda há tempo. Ainda é tempo. Sempre é.
Ronaldo Gasparian
Ilustração: Arte RadioDJ sobre caricatira de
Gepp e Maia |