Editorial - #37 - Tudo pelo anti-social

06/10/2003 - por: Camilo Rocha - Acessos: 1.750

Nos EUA, ser socialmente consciente é um hábito disseminado há muito tempo na elite. E não são doaçõezinhas de R$ 1000, não. Bill Gates, maior fortuna do mundo, ícone do capitalismo e que com certeza não tem a menor simpatia pelo regime cubano, acaba de doar $3.34 bilhões para projetos de saúde e educação ao redor do mundo, o que acredita-se ser a maior quantia já doada na história. Gates também já prometeu doar o grosso de sua fortuna ao longo de sua vida, a exemplo do que no passado fez o magnata americana John D. Rockfeller.

No Brasil isso ainda não pegou como lá e parte significativa dos endinheirados tem outra postura: não acredita nessa bobagem de função social. É ligar o "foda-se", mandar blindar o carro, pagar o condomínio com segurança máxima e continuar tentando levar vantagem em tudo, cerrrto? (como diria outro que ficou conhecido por uma declaração infeliz, lá nos anos 70, o Gerson).

O racha que se formou agora na cena tem dois lados bem nítidos, e reflete bem essa oposição entre preocupação social e benefício exclusivamente pessoal. Um lado busca fazer algo de valor, pensar as coisas no seu sentido maior, mostrar que esse bando de malucos coloridos dançando tum-tsi-tum tem conteúdo, tem ideologia, tem consciência e coração. Do outro lado a única leitura que se pode ter é "estamos nessa para faturar e cuidar do nosso." Para completar o lindo cenário que a mídia mainstream vem pintando da nossa cena, o das festas de drogados, acrescente aí "promovidas por empresários inescrupulosos."

É bom enfatizar: nada contra ganhar dinheiro, nada contra cachês grandes para DJs, nada contra patrocínios corporativos. Idealismo e pragmatismo comercial podem e devem conviver, se ajudando. Agora tudo contra ganância ilimitada, lucros a todo custo, em detrimento de ideal, de vibe, do coletivo. A cena envolve arte, música, seres humanos, sensibilidades mil, não pode ser tratada como o setor imobiliário ou o mercado de auto-peças.

A situação no momento, com o boicote Sponge/Bulldozer/Hypno à Parada AME e a qualquer evento ligado a qualquer pessoa que tenha algo a ver com a AME, chama a atenção e choca, choca muito, porque mostra o lado mercantilista cuspindo na cara do idealismo e dizendo QUEM MANDA AQUI NESSA PORRA SOU EU. Ingratidão com os idealistas que, não fosse por eles, nem música eletrônica existiria para um dia alguém ganhar em cima!

Nesse universo egocêntrico e monetarista o humano perde o sentido. DJs, por exemplo, viraram mercadorias, peças manipuláveis no jogo de interesses de seus representantes. "Meus DJs não vão tocar no seu evento se você não fizer, ou fizer isso" tem-se dito por aí. Eu achava que os DJs agiam por conta própria e não estavam sujeitos aos caprichos e interesses pessoais do feitor. Ainda prefiro acreditar nisso.

A todos os DJs e promoters que em algum momento tem sido colocados na parede, constrangedoramente, numa situação de "ou eu ou eles" peço algo bem simples: seja você mesmo, decida o que você acredita ser o certo e aí, tenha peito e não se intimide. A dignidade e a consciência limpa sempre vão valer mais do que a possibilidade de tocar na Europa.

E antes que eu esqueça: QUEM MANDA NESSA PORRA É O PÚBLICO. E esse sempre torce para o bandido se dar mal no fim da história.

Camilo Rocha
http://www.rraurl.com.br


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