Bom,
em primeiro lugar gostaria de deixar bem claro que não sou contra
a divulgação de nossa cultura desde que seja com responsabilidade
e tenha seu devido valor agregado, mas infelizmente andei acompanhado nesse
ultimo ano alguns fatos que me deixaram feliz, preocupado e até chocado
e revoltado.
A primeira riqueza explorada pelo europeu em terras brasileiras foi o pau-brasil
(caesalpinia echinata), árvore que existia com relativa abundância
em largas faixas da costa brasileira. O interesse comercial nessa madeira
decorria da possibilidade de extrair-se dela uma substância corante,
comumente utilizada para tingir tecidos. Antes da conquista da América
a indústria européia de tintas comprava o pau-brasil trazido
do Oriente pelos mercadores que atuavam nas rotas tradicionais do comércio
indiano. Após a conquista do Brasil, tornava-se mais lucrativo extraí-lo
diretamente de nossas matas litorâneas.
O rei de Portugal não demorou a declarar a exploração
do pau-brasil um monopólio da coroa portuguesa. Oficialmente, ninguém
poderia retirá-lo de nossas matas sem prévia concessão
da coroa e o pagamento do correspondente tributo. Porém com o desguarnecimento
do litoral, que constituía um ponto seguro para os navios, diversos
aventureiros e piratas portugueses, franceses, holandeses e ingleses aproveitaram
para contrabandear o pau-brasil, com a ajuda dos índios goitacazes.
Pode-se dizer que ai começa o ciclo do pau-brasil.
Agora, você deve estar se perguntando: O que isso tem a ver com a
Música Eletrônica ????????
Bom, todos nós sabemos (e insistimos em não enxergar) que
a música brasileira tem um ótimo reconhecimento no exterior.
O pior é que o gringos, que sempre enxergaram isso, estão
começando a usar nossa música e imagem em beneficio próprio.
A maior parcela de culpa é nossa, que mora aqui, respira essa cultura,
e tem a possibilidade de comprar discos por R$ 1,00 em sebos, mas preferimos
pagar R$ 50,00 em um 12" importado qualquer.
Do Chill Out ao Drum´n Bass, a coisa está mais que escancarada,
estão sampleando nossa cultura à vontade e ainda ganhando
muitos pounds por isso. Não tenho nada contra com as faixas de Drum´n
Bass que usam vocais do Gil Felix ou usam samples de MPB, até tiro
o chapéu para os produtores BRASILEIROS que fazem isso. Também
nada contra o house de Junior Jack e seu E-Samba ou o techno do DJ Cave
com suas inúmeras faixas, que nadam e se divertem em nossas fontes,
mas uma coisa me deixou muito chocado: o flyer que ilustra esta coluna,
que foi tirado do link http://innercity.id-t.com/innercity2003/.
Trata-se de uma mega-festa, que acontece todos os anos na Holanda. Tudo
bem em homenagear o Brasil na edição 2003, agora pegar nossa
bandeira e transformar em flyer já é demais, inclusive crime!
E o pior, cadê nossos DJs no line-up da festa? Será que o
Paul Van Dyk ou o Tiësto entendem alguma coisa de BRASIL?? Na verdade,
de "brasileiro", teremos a presença "garantida, exclusiva
e confirmada" de artistas como Rio Coco Girls (??) e Os Bambas do Samba
(??), fala sério, ninguém merece. Se alguem conhece esses
2 Top DJs ou Live P.A.s, me mande um e-mail por favor, pois estou extremamente
curioso para saber quem são ou o que é isso.
Desculpem o desabafo, mais a coisa é séria, se nós
não nos valorizarmos, se nossos produtores (que já são
poucos) continuarem querendo fazer "igual aos gringos", ou preferirem
pagar em doláres CDs de loops, ao invés de pegar os velhos
e bons discos brasileiros (dos anos 60 e 70 de nossas avós), lamento
mas só nos restará o papel de co-adjuvante ou o de simples
telespectadores, e não será difícil em breve estarmos
tocando a versão Extended Remix do Hino Nacional feita por algum
Cave da vida.
Antonio Garcia |