
Alô, indústria do disco: quero comprar música avulsa, como num restaurante por quilo.
Começou a era MP3. Estou meio atrasado? Não. Até agora o MP3 foi uma revolução cultural criada em computadores e curtida basicamente em computadores. Mas, por razões tecno-mercadológicas, o MP3 se libertou. Quatro fatores determinam o início "oficial" da era MP3.
Em primeiro lugar, a mídia. Os MP3 players com memória interna (tipo iPod, Nomad e Rio) continuam caros demais. A mídia que pegou de vez foi o CD de MP3. Ou seja, arquivos de MP3 gravados num CD. Um CD normal de áudio armazena no máximo 74 minutos de som. Num único CD de MP3, chega a caber mais de 11 horas de gravação (a 128 Kbps). E cada CD virgem da melhor qualidade hoje custa ao redor de 1 dólar. É o maior salto na relação custo/benefício desde que inventaram o LP de vinil.
Em segundo lugar vem o hardware: gravadores de CD são equipamentos básicos em desktops. E os softwares de gravação estão cada vez mais fáceis de usar. Queimar CD virou normal. E copiar CDs em MP3 é cada vez mais moleza com a nova geração de programas do tipo MusicMatch, RealOne, Windows Media Player, Nero.
Nos players reside o fato mais importante para esse início da era MP3. Tocadores portáteis compatíveis com MP3 se espalham pelas lojas e os preços estão desabando. DVD players de mesa (começando pelos mais baratos) tocam MP3 na sala de casa. Mini-systems levam o MP3 para o quarto. E o CD de MP3 chega aos players dos carros. O cerco está completo.
Por fim, temos os combinados: celulares, chaveiros e câmeras fotográficas que tocam MP3...
Mas qual é o tamanho da revolução? Onze horas de som num disco é muita coisa. O volume de combinações que você pode fazer com uma mídia dessas muda nossa relação com a música. São 11 horas de festa, 11 horas de romance, 11 horas de heavy metal, 11 horas de música para a estrada... Imagine o dia em que o DVD será sua mídia para guardar MP3. Num disco de 4,5 Gigabytes, 140 horas de som. Quase seis dias seguidos de música num único disquinho prateado.
O que faz a indústria da música diante disso tudo? Chama os advogados? Continua cobrando 35 reais por um CD de 60 minutos? Se quiser sobreviver, vai ter de usar a imaginação. Se não tem, aqui vai um exemplo do que poderia ser feito. Recebi um spam de um brasileiro que oferecia a coleção completa de gravações de estúdio dos Beatles em MP3:295 faixas extraídas de 16 discos, todas as letras num arquivo à parte e o player embutido. O pacote sai por 10 reais, isso é pirataria, eu sei. É crime. Esse cara está roubando o que pertence a Paul, John, George & Ringo. Mas o que ele oferece - fora da lei - é um belo produto. A indústria do disco vai ter de se virar para inventar produtos assim.
O CD comum tornou-se uma mídia mesquinha e ridiculamente cara. A um preço de DVD, o CD nos oferece uma horinha de som tecnologicamente ultrapassado (pelo DVD-Audio e Super Audio CD), com um encarte cheio de letrinhas microscópicas. A maior parte da indústria da música continua na mesma: gostou de uma música? Leve outras 11. Depois nos enganam ao requentar as mesmas coletâneas em mais um "best-of-com-faixa-bônus". Isso já virou extorsão para um cara que precisa desesperadamente de música como eu.
A política imutável é o maior incentivo à pirataria. Alô, indústria do disco: quero comprar música avulsa, como num restaurante por quilo. Quero gravar CDs personalizados. Quero comprar coleções inteiras compactadas em um único disco de MP3. Quero liberdade, inovação, produtos que valham o preço. Mude. Nós já mudamos.
Dagomir Marquezi
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