Editorial - #46 - iPod: EUA viram nação zumbi
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| iPod: EUA viram nação zumbi |
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Popularização do walkman digital da Apple leva as pessoas a viverem em bolhas, criando uma sociedade autista.
Estava visitando Nova York quando observei uma coisa que nunca pensei que diria sobre a cidade. Sim, a vida noturna está praticamente morta. Mas a vida diária - aquela insana mistura desordenada de gritos, conversas, algazarra, atropelo e nervosismo que faz de Nova York o equivalente urbano da metanfetamina - também estava um pouco diferente. Estava mais silenciosa.
Enquanto olhava através das aglomerações nas calçadas, comecei a perceber o que mudara. Havia pequenos fios brancos pendurados nas orelhas das pessoas ou enfiados no seus bolsos, bolsas ou paletós. Os olhares eram um tanto vagos. Cada um estava no seu próprio mundo musical, caminhando no ritmo da sua trilha sonora, quase esquecido do mundo ao seu redor. Essas são as pessoas iPod. Mesmo sem os fios brancos, você sabe quem são elas. Caminham pela rua no seu próprio casulo MP3, abstraídas das pequenas delicadezas sociais, deixando de fora todos que não estão na sua bolha.
Quando outros dizem "Desculpe-me" não há resposta. É estranho estar no meio de tanta gente e ouvir tão pouco. A não
ser pelo fato que todos estão ouvindo muito.
Eu devo confessar que Sim, eu devo confessar que sou um deles. Testemunhei os olhares vítreos da Nova York através de minhas próprias papilas vitrificadas, meus fios brancos saindo das minhas orelhas. Uni-me ao culto há alguns anos: a seita dos devotos da pequena caixa branca. Outros começaram, como eu comecei, com um Walkman - e depois um tipo de tocador MP3 mais barulhento. Mas a praticidade do iPod me conquistou. Diferentemente de outros modelos, ele me deu uma coleção musical inteira para reorganizar do jeito que quisesse - durante o vôo, no meu bolso.
O que era antes uma distração ocasional virou compulsão. Agora eu tenho o meu iTunes no meu iMac para o meu iPod no meu iWorld. É o céu de Narciso; finalmente o "i" no Eu.
E, como todos os cultos viciantes, está se espalhando. Há agora 22 milhões de proprietários de iPod nos Estados Unidos, e a Apple está se tornando uma empresa de mercado de massa pela primeira vez.
Dê uma volta em qualquer aeroporto americano atualmente e você verá uma pessoa após a outra se deslocando pelo éter social como se estivesse no piloto automático. Entre no metro e você se verá cercado de
viajantes robotizados, olhando para o espaço como anestesiados pela tecnologia. Não pergunte, não fale, não ouça. Apenas sintonize e dessintonize.
Não seria preocupante se não fosse parte de algo ainda maior - os americanos estão começando a estreitar sua vida.
Você obtém as notícias de seus blogs favoritos, aqueles que não contestam sua visão do mundo. Sintoniza seu serviço de rádio por satélite. A televisão é toda a cabo. A cultura é toda subcultura.
A tecnologia nos deu um universo inteiro para nós mesmos - onde o feliz acaso de encontrar um estranho, ouvir uma música que nunca escolheríamos por conta própria ou uma opinião que nos obrigue a mudar nossa concepção sobre algo são eficazmente banidos.
Os seres humanos nunca viveram assim antes. Sim, sempre tivemos casas, refúgios ou lugares onde queremos nos descontrair, descansar a nossa mente ou deixar o mundo lá fora.
Anteriormente, a música era reservada à sala de estar ou à sala de concertos. Era às vezes solitária, mas era antes uma experiência compartilhada, que reunia as pessoas, lhes dava o conforto de saberem que outros também entendiam o prazer de uma sinfonia de Brahms ou de um álbum dos Beatles.
Mas a música está tão dividida em partículas como a vida está agora. E é secreta. Aquele camarada sentado ao seu lado no ônibus pode estar ouvindo heavy metal ou um canto gregoriano. Você nunca vai saber. E assim, nunca realmente vai conhecê-lo. E, pelos seus fios brancos, ele está indicando que não quer conhecer você.
Mas o que estamos perdendo? Aquele hilário fragmento de uma conversa ouvido por acaso que fica conosco o dia inteiro. E aqueles pensamentos que vêm não por preencher sua cabeça com diversão selecionada, mas por permitir que sua mente vague sem destino pelos ruídos comuns dos bastidores da vida humana e mecânica.
Os estímulos externos podem apinhar a mente. Mesmo o tédio do qual fugimos tem suas utilidade. Enriquecemos nossa vida a partir do nosso interior, em vez de partir de fios brancos. Porém, é difícil abandoná-los. Não faz muito tempo, eu estava numa viagem quando me dei conta que tinha deixado meu iPod para trás.
Entrei em pânico. Mas depois notei os ritmos dos outros, as opiniões do motorista de táxi. Observei como as pessoas se relacionam entre si. E me senti um pouco mais conectado de novo, mais atento.
Tente. Existe um mundo lá fora. E tem uma trilha sonora toda própria.
© 2005 The Times - Andrew Sullivan