Há quem aposte que ele está com os dias contados. Há quem sustente que um suporte físico continua a ser o melhor cartão de visitas para um artista. Mas afinal, qual o papel do CD em meio à revolução digital que afeta tantas áreas de produção de conteúdo, com particular impacto sobre a música?

Os números globais de vendas (ou descargas) de música gravada, presentes no último relatório da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), são incontestes: meios como o CD, o DVD, o LP e a fita cassete já não reinam mais. Ao contrário, perderam a primazia global para o streaming, que representa US$ 6,6 bilhões, ou 38,4% de todas as receitas do setor fonográfico (o da comercialização de canções gravadas). No Brasil, o streaming já é imbatível: US$ 162,8 milhões em faturamento, ou 55,1% do mercado fonográfico nacional, contra pouco mais de 5% das mídias físicas.

“Sempre haverá artistas que vendem mais em mídias físicas, em função dos hábitos do seu público.”

Paulo Rosa, presidente da Pró-Música Brasil

Apesar de ligeiros crescimentos nos últimos anos, após sua conversão em objetos de culto, LP e cassete são praticamente peças de museu já; e os CDs e DVDs aparentam ir pelo mesmo caminho. Mas não tão depressa nas conclusões, caro leitor: o caminho da música digital também é acidentado e tem surpresas.

“Se fôssemos cravar uma previsão, há dez anos, a gente ia errar redondamente na tendência. Pensava-se, então, que o download era o futuro”, disse Paulo Rosa, presidente da Pró-Música Brasil, a associação dos produtores fonográficos do país. Como ele lembrou, o download parecia ser a modernidade diante da irrefreável queda das vendas físicas, mas aí veio o streaming, e já se sabe o que aconteceu.

Se a queda dos suportes físicos não foi desprezível ano passado (no Brasil, foi muitíssimo maior do que os 5,4% globais, chegando a um tombo de 56% de queda no faturamento em relação a 2016), a dos downloads não fica muito atrás. No mundo, queda de 20,5%; no Brasil, um encolhimento que chegou a 31% em só um ano.

“Se olharmos friamente para os números, com base nos dados de hoje, as vendas físicas e os downloads estão caminhando juntos para virar nicho. Mas sempre haverá artistas que vendem mais em mídias físicas, em função dos hábitos do seu público ou outros que queiram fazer portfólio incluindo um formato não digital. A indústria, hoje, tem tamanha quantidade de modelos de negócios que todos se beneficiam, tudo vale”, explicou Rosa.

“A galera gosta de ter o disco autografado ali na hora, bater um papo.”

Gabriel Thomaz, vocalista do Autoramas

O sambista carioca Moacyr Luz é um dos que não abrem mão do formato físico. Ele comentou, saudoso, o tempo em que os esquemas de divulgação da obra de um artista eram mais previsíveis. “Já não é fácil (para os artistas que ainda não têm nome) porque há a crise do CD e de outros suportes físicos e já não há tanto a força do rádio para divulgar o trabalho”, afirmou ele, que comemora o sucesso de vendas de seu mais recente álbum (que teve ênfase no formato físico), “Ao Vivo, no Bar Pirajá”.

O contato de Moacyr tête-à-tête com seu público, toda semana, no seu projeto Samba do Trabalhador, facilita a disseminação dos suportes físicos. Não é raro que os fãs levem os CDs para ele autografar. Um hábito que também estimulam muitos artistas de estilos populares como o sertanejo ou bandas do rock independente cuja receita vem, em grande parte, de discos vendidos em shows de pequenas turnês país afora.

“Vamos sempre até a nossa lojinha depois do show, porque sabemos que a galera gosta de ter o disco autografado ali na hora, bater um papo”, disse Gabriel Thomaz, vocalista do Autoramas, uma das mais bem-sucedidas bandas do rock independente nacional, que também faz seus lançamentos em vinil e fita cassete. “O cassete tem um ar de fetiche, tem gente que gosta de colecionar. Além disso, fabricamos nossos discos na Alemanha. E, de lá, eles distribuem no resto da Europa e em outros lugares do mundo, como Japão, Estados Unidos…”

“2002, quando lançamos o primeiro disco, foi o último suspiro do álbum físico.”

Marisa Monte

O baiano Léo Santana está no extremo oposto do espectro. Para ele, suas centenas de milhões de visualizações e audições em plataformas como YouTube ou Spotify são, sem dúvida, a fórmula do fenômeno musical em que se converteu: “As plataformas digitais são incomparáveis na velocidade de lançamento de um hit e de sua propagação em todo o mundo, não só no Brasil.” De fato, os fãs do cantor, de uma faixa etária mais baixa, não são os típicos consumidores de CDs ou DVDs, movendo a carreira do astro a golpes de curtidas e interações em redes sociais. Para eles, a estratégia é diferente: aposta total no streaming e versões visuais das músicas — sejam em clipes tradicionais, sejam em lyric videos— sempre que possível.

Foi essa lógica que guiou um dos maiores lançamentos da indústria nacional, no ano passado. O conceito do hand album, lançado pelo Facebook para concentrar letras, vídeos, encartes e outros conteúdos, tudo digitalmente, na rede social, caiu como uma luva no novo álbum do “Tribalistas”. A estratégia integrou ainda o agregador digital Altafonte e o Spotify, que lançou clipes exclusivos e foi a base principal para a propagação das canções.

Como disse à Revista UBC uma das mentoras da estratégia, Marisa Monte, “2002, quando lançamos o primeiro disco, foi o último suspiro do álbum físico. Era preciso nos colocarmos no mundo de hoje, que é digital, de maneira sagaz. A música deixou de ser produto e passou a ser serviço. O digital, em suas diferentes formas, já é 60% do mercado. Só o Spotify tem quatro milhões de assinantes no Brasil e potencial para dez vezes mais.”

“É a primeira vez que o Capital fará um lançamento principalmente para streaming. Quero saber se a gente vai aguentar.”

Dinho Ouro Preto

Esse pensamento guia também o Capital Inicial. Pela primeira vez, a banda liderada pelo vocalista Dinho Ouro Preto abriu mão dos formatos físicos e aposta num lançamento 100% digital do seu novo álbum. Por ora, está nas plataformas o primeiro single, “Não me Olhe Assim”. Os outros sairão até o fim do ano da mesma forma. “É a primeira vez que o Capital fará um lançamento principalmente para streaming. Esperamos conseguir fazer 12 músicas. Temos oito arranjadas”, Dinho contou ao portal UOL. De fato, renunciar ao suporte físico e investir em lançamentos de singles mês a mês, um esquema que depende dos bons resultados de audições para virar caso de sucesso, soa a modernidade pura, mas é incerto. “Quero saber se a gente vai aguentar”, concluiu Dinho.