A cada mês de fevereiro, maio, agosto e novembro é distribuída pelas associações de direitos autorais, a rubrica streaming, com as cifras de Spotify e outros serviços antes regularizados e que, a partir de agora, terá também o YouTube. Isso deve renovar a surpresa dos titulares, principalmente pelo valor do ponto, que é quase uma abstração, de tão baixo.

No caso desta distribuição extra de YouTube, foi de exatamente R$ 0,000072812 por execução. Essa cifra é tão longe de um centavo que, para atingir essa rara moedinha, cuja produção já não existe e cuja circulação vai pelo mesmo caminho, seriam necessárias mais de 137 execuções de uma determinada obra. Como, em muitos casos, o total de execuções fica abaixo disso, repetem-se com frequência, no extrato, um zero à esquerda e diversas casas decimais que não agregam muito ao total. Traduzindo: 75,58% dos titulares receberam menos de R$ 1,00 nessa primeira distribuição de YouTube, com pagamento referente ao período de dezembro de 2012 a setembro de 2017. E só 3,65% receberam acima de R$ 100.

Apesar de que o ponto não é fixo, variando em função das receitas do YouTube em cada período apurado e do número total de visualizações das obras, não é de se esperar, pelo menos por enquanto, um salto muito significativo nos ganhos para os autores.

Então, por que essa categoria é digna de nota? 

A resposta é simples: tudo converge para a era digital, e o mundo do streaming (não só o da execução pública, que é aquilo de que tratamos aqui, mas o de todos os negócios que envolvem o digital, como licenciamentos, outros direitos pagos às gravadoras, editoras e agregadores etc.) cresce vertiginosamente. O relatório anual da UBC de 2017 revelou, por exemplo, que, apesar do streaming ainda representar uma fatia pequena do total distribuído (4,9%), o crescimento em relação a 2016 foi de impressionantes 546%. Para as gravadoras, o streaming já representa 55,1% do mercado, segundo o último relatório da associação ProMúsica. Então, parece óbvio que haverá um crescimento na execução pública com o ganho de escala. Além disso, ter sua música numa plataforma de streaming, seja o YouTube, sejam Spotify, Deezer, Pandora ou Apple Music, entre outras, é um trampolim que permite exposição, maiores vendas, mais shows e visibilidade, gerando um ciclo virtuoso que beneficia a carreira de qualquer um.

Mas voltemos aos números. Ainda há margem para uma boa melhora a curto prazo no YouTube. Para se ter uma ideia, o Spotify, em sua última distribuição, em maio (a próxima é agora em agosto), teve um ponto de R$ 0,000453890 na modalidade premium (a de assinaturas) e de R$ 0,000036833 na modalidade gratuita, aquela que só rende ganhos com anúncios. Muitos números, certo? Pois traduzamos: na modalidade premium, é como se uma música precisasse ser executada 22 vezes para atingir o mesmo centavo que, no YouTube, exige mais de 137 execuções; já na modalidade gratuita do Spotify, o panorama é pior do que no YouTube: a música precisaria de mais de 271 execuções para render, a todos os autores somados, a moedinha mais baixa do nosso sistema monetário.

Outra vez, como no YouTube, os valores do Spotify e das outras plataformas variam em cada período de captação, em função do total de músicas executadas e das receitas. Em resumo, quanto mais assinantes ou publicidade tiverem os serviços digitais, mais crescerão (ainda que lentamente) os ganhos dos autores. Sobre os períodos de captação de cada distribuição, aliás, é bom lembrar que eles não são exatamente os mesmos das rubricas normais, como shows, TV ou rádio. Dada a natureza mais dinâmica do mundo digital, conseguimos incluir todas as execuções musicais do período relativo às mensalidades liquidadas que tiveram os dados processados até o mês anterior à distribuição. Isso torna essa rubrica uma das mais “quentes” de todas.

Outra coisa que já vem funcionando bem é o bom índice de identificação das obras executadas. Nessa primeira distribuição de YouTube, ele chegou a 78,21%, graças aos esforços e investimentos em tecnologia do Ecad.

“Estamos muito felizes por termos alcançado 78% de identificação das músicas constantes dos arquivos do YouTube. Esse elevado índice é fruto do cruzamento das informações recebidas com o nosso banco de dados composto por mais de oito milhões de músicas, seus respectivos ISWCs e os ISRCs dos fonogramas de cada uma dessas canções. O fato do Ecad ser a agência codificadora do ISWC no Brasil, e de possuir os links das informações de obras e fonogramas (ISWC-ISRC) em seu banco de dados, foi o grande diferencial para a identificação”, comemora Glória Braga, superintendente do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição.