Se você não passou os últimos meses isolado em uma ilha deserta, você com certeza já ouviu “O Sol”, hit de Vitor Kley. A faixa, embalada por voz e violão, tomou conta das rádios e das plataformas de streaming e o cantor chegou a desbancar Anitta no ranking Pop Brasil.

Mas se para o grande público Vitor Kley já apareceu arrasando logo no primeiro single, a verdade é que ele está na estrada há bastante tempo. Antes de cair na graça do super produtor Rick Bonadio e gravar um EP e um disco, Adrenalizou, lançado recentemente, o jovem de 24 anos já tinha lançado dois outros álbuns e foi apadrinhado por Armandinho.

Billboard Brasil conversou com Vitor Kley sobre a trajetória até o sucesso, a surpresa com a recepção de “O Sol” e a apreensão para não se tornar um “one hit wonder”:

Para o público em geral, você surgiu com “O Sol” e já estourou nas rádios e plataformas digitais. Para começar, conte um pouco sobre o processo de produção do seu primeiro grande sucesso.

É verdade. Eu escrevi “O Sol” em 2016, no mesmo ano gravei meu EP com o pessoal da Midas Music, mas antes eu já tinha lançado dois discos, um quando tinha 13 anos e outro aos 17. Realmente, para o grande público, eu surgi com “O Sol”, mas eu já vinha tentando, lançando outras músicas que não davam certo. Compus “O Sol” um dia de manhã, depois de surfar em Balneário Camboriú, e foi como uma carta ao sol mesmo. O processo foi simples, gravei em um aplicativo do celular. É sobre algo tão simples que, às vezes, não damos valor. As pessoas interpretam de uma forma romântica, como se uma outra pessoa amada fosse o sol. Confesso que não imaginava que seria grande, mas para qualquer pessoa que eu mostrava a opinião era unânime. Eu sabia que era forte, mas não criei expectativas porque já tinha lançado muitas músicas que acabaram não dando certo. Nas primeiras horas após o lançamento já percebi que a movimentação era diferente, recebi o apoio do Neymar e do Cauã Reymond, que divulgaram a música espontaneamente.

No nosso ranking Pop Brasil, a música está presente no pódio há três meses e já chegou a ocupar o 1º lugar, desbancando Anitta. Na RadioDJ a música está sempre presente no Top 20 oficial faz meses. Como tem sido receber esse apoio tão forte do público?

Admiro Anitta, ela é universal, faz colaborações no funk, no pop, no sertanejo. Adoraria uma parceria. Lembro de ver esse ranking e parecer que estava vivendo um daqueles documentários musicais que mostram os artistas chegando ao topo da Billboard [risos]. É algo que vou contar para os meus filhos. As rádios foram contra a maré divulgando a música porque é uma faixa voz e violão, em um momento que tem muito pop e funk tocando. Não achei que iam apostar na música. É louco como a vida é. Sou muito grato por abraçarem a música e o carinho que têm comigo.

A música estourou, você lançou o disco Adrenalizou e já está trabalhando outros singles, mas muitos ainda não ligam o rosto ao nome ou à voz que canta o hit. Tem medo de ser artista de uma música só?

Isso é normal para quem começa e ultrapassa a barreira imaginável. A música é sempre maior do que o artista. É um desafio, estou indo na TV, dando entrevista, sendo autêntico e tentando não sumir do cenário. Lancei o disco porque já tinha muito material guardado de 2012, 2013. Confesso que fiquei com medo de “Morena” [novo single, em parceria com Bruno Martini] ficar escondida atrás de “O Sol”, então quando vejo que está tocando, fico ainda mais feliz do que ficava com “O Sol”. É uma conquista enorme me conhecerem pelas composições. Agora “O Sol” já deu uma saturada, reconheço, e nas redes já estão pedindo mais por “Morena”, nos shows os fãs pedem e cantam.

Você trabalha desde que era muito novo. No que isso o ajudou?

É muito massa… As coisas acontecem quando têm que acontecer. A vida não erra. Quando eu era novo, ninguém cantava as minhas músicas, tive muitos shows cancelados porque não tinha público e isso me ajudou a criar uma casca, aprendi que leva tempo. Eu não estava pronto e, talvez naquela época, se tivesse estourado, seria um artista de uma música só. Eu tive tempo para amadurecer, compor mais, aprender o que combina com a minha voz e chegar com conteúdo, sabendo tocar, sabendo me portar no palco.

Apesar de “O Sol” ter uma vibe meio Jack Johnson por ser voz e violão, “Morena” já mostra um lado mais pop, assim como outras faixas do seu disco Adrenalizou. Como vê esse momento para o gênero pop no Brasil?

Acho legal essa diversidade no álbum. Tem voz e violão, tem pop, tem mistura dos dois. Eu sou um artista pop, escuto muito Post Malone, por exemplo. Caminho nos dois universos e, com a liberdade que a rádio dá, caminho tranquilo. Todo mundo está se reinventando, fazendo parcerias. Vejo o cenário muito bom, se formando, se unindo.

A sua música tem uma pegada bem good vibes, com letras positivas e românticas e, por isso, “Armas A Nosso Favor” se destaca por falar sobre assuntos mais complicados como política e corrupção. Por que decidiu trazer isso para o disco e como vê o momento atual?

Eu escrevi essa música entre 2014 e 2015. Já é antiga, mudei o estilo de composição. Ela fala sobre coisas que eu via, notícias ruins, sempre via meu pai assistindo televisão com um clima de raiva por causa da violência. Isso despertou o meu desejo de compor… Estamos deixando de lado o amor, o sorriso, o abraço, coisas simples, mas tão importantes. As pessoas estão tão cegas… Estão perdendo a razão, perdendo amigos. Quero que quem ocupe [a presidência] espalhe o amor. Vamos usar armas para o bem. No meu caso, o microfone.

Você canta principalmente sobre o amor para jovens de uma geração desapegada e com medo de expressar os sentimentos. Como é isso?

Estamos mais voltados para o celular, para ser espetacular nas redes sociais e não pessoalmente. Acredito que esteja havendo uma mudança. Estamos presos ao virtual e minha missão de compositor é transcender. Quero que saiam do show e abracem os pais. Está havendo uma conexão massa de amor nesse cenário atual. Good vibes, como você descreveu, é o que tenho a dar, quero fazer o bem.

Ouça Adrenalizou: