Você já perdeu as contas de quantos meses durou essa semana. E como se não bastasse os dilemas corriqueiros do trabalho (ou dos estudos), você ainda tem questões mal resolvidas no campo do amor, obstáculos financeiros, inquietações sobre o passado e dúvidas sobre o futuro. O que você mais quer é se desligar um pouco disso tudo e ter alguma sensação inesperada que te separe da rotina.

Agora imagine umas 50 dessas criaturinhas complicadas iguais a você todas juntas em um ambiente feito para realçar nossos sentidos.

Embale tudo com ritmos sincronizados que colocam em movimento todas essas pessoas e pense que esses movimentos liberam endorfina, nos fazendo esquecer por alguns minutos dos nossos anseios antes de sairmos deste grande transe coletivo de volta para a vida real.

Imaginou?

A descrição pode até parecer com a de uma seita, mas na verdade é a de uma balada. Não que estejamos muito longe de um tipo de adoração divina em um show ou festival, até porque muitos de nós consideram música uma espécie de religião, né?!

Agora calcule a responsa da pessoa que precisa criar a atmosfera perfeita para que essas nossas expectativas sejam cumpridas?

Amigos, o trabalho que os DJs fazem é serviço de utilidade pública. Eles são o mais próximo de um xamã que temos no nosso cotidiano e sem a magia da música deles a nossa vida seria um enorme amontoado de terças-feiras, e, vamos combinar, ninguém quer isso.

Para entender um pouco mais sobre essa energia que a música tem, me desafiaram a tocar numa festa como DJ, mas apesar da minha empolgação com a profissão, eu quase desisti. Atacar de DJ no meio de um monte de gente que eu não conheço, sem ter a MENOR IDEIA de como fazer isso? Aí complica…

Uma semana foi o tempo que o Luiz Bacchi, mais conhecido como o DJ e produtor “smsr_”, tinha para, não só me transformar do zero no mestre Jedi das picapes, como também para não me deixar desistir do desafio no meio do caminho, rs.

Para aumentar minha confiança, ele disse que antes de ser DJ e ter o selo de música eletrônica “nofriends”, esteve em diversas bandas, dos mais diversos estilos, além de ter tocado contrabaixo na String Orchestra of Brooklyn — que eu não conhecia, mas achei muito chique — quando ele morou em Nova Iorque.

A gente tem a impressão de que qualquer pessoa pode ser DJ — e com muita dedicação isso é até verdade — mas para ter destaque na cena é preciso ter uma visão do todo. E aí eu percebi que:

EU NUNCA TINHA PARADO PRA PENSAR NO QUE UM DJ FAZ.

“Não é a uma pessoa que dava play nas músicas e só?”

Durante muito tempo os DJs foram os responsáveis por criarem um ambiente acolhedor para as populações marginalizadas da sociedade que só procuravam um lugar onde pudessem ser elas mesmas e celebrar suas pequenas conquistas por meio das músicas com as quais se identificavam. Isso é muito significante e subversivo até hoje.

Na prática, o DJ é um “administrador de vibes”, alguém responsável por fazer uma curadoria musical (uma das partes mais difíceis e importantes da profissão, inclusive) e tocar essas canções de forma contínua sem deixar que haja nenhuma quebra no ritmo. Daí vêm as técnicas responsáveis por mixar ou juntar uma música na outra. Fazendo uma timeline climática com introdução, desenvolvimento, criação e alívio de tensão, transformação e conclusão.

Resumidamente, ser um contador de histórias por meio de ondas sonoras, sacou?!

(Foto: Thais Padilha / BuzzFeed Brasil)

Aí eu já tava entregue. Como homem negro, eu já estava fascinado pela parte da empatia, resistência e acolhimento de minorias. Como redator do BuzzFeed Brasil, as semelhanças criativas na produção de conteúdos originais me deixaram com os olhos brilhando.

Essas características marcantes também encantaram o Luiz e foram alguns dos motivos pelos quais ele deixou a orquestra para se tornar DJ e produtor musical.

Ele vê nessa área uma possibilidade muito maior e mais democrática de conectar as pessoas pela música do que quando era focado apenas em ritmos eruditos. Além disso, ele conta que o ambiente musical era mais distante das pessoas, mais elitista e de difícil entendimento pela audiência. Fora a pressão, os rigorosos horários de treino e as cobranças impostas aos músicos que trazia ao todo um destrutivo quadro físico e mental, transformando a música clássica em praticamente um — desgastante — esporte olímpico.

O que não quer dizer que profissão de disk jockey não tenha as suas dificuldades do dia a dia, o que me leva à segunda coisa que aprendi:

ESTRATÉGIA. DO GREGO STRATEEGIA, EM LATIM: STRATEGI, NA MÚSICA: TUDO.

Pense na profissão de DJ como um eterno jogo de xadrez contra ele mesmo. Todas as peças parecem estar em desvantagem, mas com paciência, um olhar e ouvidos atentos, é possível escapar de qualquer armadilha que possa surgir nesse tabuleiro.

Entender o básico de música dá uma visão geral de como toda a matemática (sim, música é basicamente matemática e físicas combinadas para gerar sons) de uma canção funciona. Isso faz com que os aspirantes a DJ (eu) não tenham tantos problemas com os diferentes tons de cada canção e ainda nos ajuda a entender como as repetições musicais fazem as pessoas curtirem uma melodia. Nos dá uma compreensão de todo o sistema de batidas por minuto, compassos e frases musicais existentes numa composição e que podem de alguma forma ser um sucesso ou comprometer a mixagem do setlist aos ouvidos da audiência (vocês).

Falando da audiência, conhecer seu público e o ambiente que receberá o evento é muito importante. Saber que estilo eles gostam de ouvir, se são poucas pessoas ou se são muitas. Qual é a idade média delas? Que horas que o evento irá começar e terminar? Que horas VOCÊ irá tocar, quem vem antes e até depois de você? O lugar é grande ou pequeno? O DJ terá algum apoio visual ou jogo de luzes? Vai ser em um lugar fechado ou aberto, claro ou escuro? O evento é a celebração de alguma vitória, casamento, formatura? Ano Novo ou apenas uma festa normal?

São tantas as variáveis que é fácil se perder, mas uma vez que você tem todas essas informações na mão, sua maior preocupação precisa ser com você mesmo.

É preciso ter uma noção das suas limitações em termos de habilidade, tecnologia e logística disponíveis. Da quantidade de músicas na sua playlist, de quantas horas você vai precisar tocar, se a sua curadoria está show ou se você tem uma boa construção de “história” para apresentar. E, claro, se está empolgado pois, querendo ou não, um “administrador de vibes” se expõe e precisa dar o exemplo.

Isso tudo é tão ou mais importante do que algum conhecimento avançado em softwares de edição ou picapes. E bastante decisivo para não acabar tomando um xeque-mate na pista de dança.

Quase chegando no dia do meu “TCC”, o Luiz me mostrou um pouco da importância das pessoas no meio musical. E bem… elas são tudo.

PELAS PESSOAS E PARA AS PESSOAS. NO FINAL, É TUDO SOBRE CONEXÕES.

Se estudarmos como surgiu esse cenário musical específico, como ele se mantém de pé e como se prepara para o futuro, o que vamos encontrar de semelhança entre eles é que é tudo sobre conexão.

Se o bom DJ é aquele que consegue criar um ambiente musical perfeito para que conexões surjam — seja com outras pessoas, com sensações, pensamentos ou com você mesmo — o cenário musical independente sabe disso e usa essa mentalidade a seu favor para se fortalecer, quebrar padrões e prosperar.

Pode ser conectando ideias jovens à métodos tradicionais ou juntando pessoas distintas que deveriam trabalhar em algo juntas. Criando pequenos círculos para testar novas visões ou fazendo uma curadoria de músicas solitária, mas que vai inspirar um mundo de profissionais. Seja conversando, debatendo, compartilhando inspirações ou reconhecendo o talento dos colegas… O sentimento de comunidade dentro desse cenário musical é verdadeiro e presente. É sempre pelas pessoas.

E apesar de ser um mercado complicado e concorrido, essa sensação de pertencimento criado pelos membros da área é belo e promissor o suficiente para gerar transformações. Por terem o objetivo de fazer com que novas composições sejam criadas e que os ouvintes sejam impactados positivamente por elas, todos estão na mesma página, se sentem parte de algo maior e que podem liderar mudanças de paradigmas – o que de fato podem e conseguem. Essa posição transparente reflete em como a audiência enxerga, respeita e exalta os músicos. É sempre para as pessoas.

A possível recompensa financeira vem com uma consequência dessa visão.

Sabe quando você ouve uma música e volta ela pro inicio mil vezes porque sente que não a ouviu como merecia? Esse foi eu durante os 55 minutos de trajeto da minha casa até o evento onde seria o meu teste final. Uma balada onde eu abriria a pista de dança, faria a mixagem e passaria o bastão para o Luiz continuar a festa. Parece fácil, né?

Mas mesmo passando uma semana aprendendo técnicas de mixagem, conceitos musicais e avaliando todos as peças desse tabuleiro, nada poderia me preparar para o possível julgamento do público. Mas acabou que no fim deu tudo certo!

Até porque a expectativa era abrir a festa assim:O início promissor de uma festa.
(Foto: Thais Padilha / BuzzFeed Brasil)

E na realidade foi assim:

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk (cada k é uma lágrima)
(Foto: Thais Padilha / BuzzFeed Brasil)

Mas tudo bem, eu consegui sincronizar as músicas, não errei na mixagem… Além disso, os funcionários do bar, que foram obrigados a ouvir meu mini setlist pois estavam trabalhando, e os donos da festa, que estavam por ali pois estavam trabalhando, me elogiaram. Disseram que eu mandei muito bem para quem nunca tinha feito isso na vida e que eu tenho muito futuro na carreira de DJ — abre o olho BuzzFeed.

Obrigado pela oportunidade, meus consagrados. <3

Essa experiência toda me conectou mais profundamente com o poder da música só me deu mais certeza de que devemos festejar mais vezes.

Pensa bem.

Uma das razões é aquela coisa clichê de “viver o presente” sabe?! Mas não o “viver o presente” indulgente que acaba sendo uma desculpa esfarrapada para consumir algo novo imediatamente, mas sim aquela atitude de se lembrar onde estamos e o que somos, mais do que focar nas coisas que não temos ou deixamos de fazer.

Celebrando as nossas — pequenas ou não — vitórias ou apenas curtindo quem somos, temos aquele momentâneo descanso mental que precisamos entre a conquista de um objetivo e o planejamento de outro, nos permitindo ajustar a nossa bússola mais rápido. Fora que aumentamos a saudável conexão entre as pessoas e o sentimento de comunidade que leva às transformações relevantes.

Ou seja, você já pode falar para o seu chefe que fazer festas ajuda na produtividade. De nada.

Levando em consideração que cada um de nós está trilhando o próprio caminho, se com o poder da música conseguimos nos conectar e deixar toda essa caminhada mais fácil e divertida, isso só prova o meu ponto: manda mais comemoração que tá pouco!

Imagine que a vida é uma pista de dança e lute pelo seu direito de festejar!