Da revolução do Vinil até a inovação tecnológica do seu substituto, o CD, o mundo e sua cultura mudaram muito no girar dos discos.

O Biscoitão

O disco de vinil, também conhecido como LP (Long Play) ou simplesmente Vinil, representou uma revolução em relação ao seu antecessor, o disco de 78 RPM. Seu nome vem justamente do material que possibilitou esse grande passo.

O Policloreto de vinila, popularmente conhecido como PVC, é um plástico vinílico. O material  permitiu aos discos de vinil serem mais leves, maleáveis e resistentes a choques, quedas e manuseio, e tinha uma capacidade maior de armazenamento, diferente do modelo antigo, feito em goma-laca. O popular “biscoitão” comporta cerca de 30 minutos em cada lado, já o 78 RPM, apenas uma faixa por lado.

Mesmo que alguns puristas discordem, a qualidade de áudio do vinil era superior e o uso das capas grandes e chamativas apresentava o que seria o personagem principal de uma revolução musical.

Em contrapartida, seria injusto não dar o devido valor ao disco de 78 RPM. Presente desde 1890, ajudou a fazer a carreira de grandes músicos, como Louis Armstrong e Jimmie Rodgers, além de manter em movimento o mercado fonográfico. Porém seu custo, fragilidade e pouca capacidade de armazenamento foram limitadores tecnológicos que impediram uma real popularização. Ele preparou o terreno e plantou sementes, mas quem colheu os frutos foi o vinil.

Lançado em 1948, o LP, além das grandes vantagens já descritas, contou ainda com um grande aliado, o timing. Em um mundo pós-guerra, com economias, tecnologias e revoluções culturais florescendo, onde encontrava o espaço e momento ideal para levar o mundo da música para uma nova era.

Muito mais acessível, a mídia chegou às grandes massas. Uma geração inteira mudou a sua relação com o consumo de música: coleções de discos, álbuns ouvidos centenas de vezes, trocas entre os amigos, capas inspiradoras… São vários elementos da aura quase mística que se gerou em torno dos vinis.

Foram anos dourados, que revelaram e popularizaram lendas da música mundial. Michael Jackson, Pink Floyd, AC/DC, Whitney Houston, Led Zeppelin, e The Beatles são apenas alguns exemplos dos recordistas de  vendas de discos, que “nasceram” nesta mídia e viram suas carreiras alcançarem novos patamares de sucesso, em grande parte devido ao seu poder de disseminação. Pense em todos os grandes artistas, nacionais e internacionais,  dos anos 50, 60, 70 e 80, que arrebataram legiões de fãs e escreveram seus nomes na história, influenciando a música até os dias de hoje. O vinil teve papel vital em tudo isso.

Assim como os vinis, o planeta continuou rodando, deixando de lado o analógico e entrando na era digital, no final dos anos 80. A música, obviamente, não ficou de fora.

High-Tech

Surge então um novo personagem nessa história. O Compact Disc, o popular CD, chegou com as mesmas vantagens que o LP apresentou na década de 40, para desbancar seu antecessor. Maior capacidade de armazenamento, durabilidade e clareza sonora, além da tecnologia digital (que passava a dominar o mundo), foram os elementos que forçaram a passagem do bastão. O LP tornou-se rapidamente obsoleto e foi sentenciado à extinção. Ou será que não?

O CD cumpriu o papel de dar continuidade ao legado do LP. Não se preocupou em revolucionar o consumo de música, mas a se adaptar às novas tecnologias. Claro que o formato compacto (origem do seu nome), que permitia maior mobilidade e o maior armazenamento, sem a necessidade de trocar o lado do disco, são elementos relevantes incontestáveis.

O CD passava a oferecer comodidade aos usuários e manteve a indústria da música a todo vapor pelas duas décadas que se seguiram, sendo vendido aos bilhões. Entretanto, a roda da história continua a rodar, cada vez mais acelerada.

Roda a roda

Hoje já vivemos uma nova era: a era da nuvem. As informações e dados, assim como as músicas, já não precisam mais ser armazenados em mídias físicas, limitadas ao acesso individual. Está tudo interligado em uma grande rede movida por internet de alta velocidade. É a vez do streaming brilhar, e tudo leva a crer que o papel do CD já foi cumprido e que seu fim está bem próximo.

Por outro lado, mesmo que as tecnologias estejam em constante evolução, não deixa de ser uma roda. Como em um disco, cada volta é também o reinício de um ciclo e a cada recomeço podemos ser surpreendidos.

Ao passo que o consumo de música transita do CD para as plataformas de streaming, o ressurgimento do vinil aparece se movimentando em contraponto. Seja por nostalgia de um passado idealizado, ou coisa de hipster que quer ser descolado, o fato é que o consumo de discos de vinil vem crescendo ano a ano.

Além dos mais saudosistas, uma nova geração influenciada pelas histórias de seus pais e avós, passou a enxergar o vinil como uma alternativa ao mundo acelerado e consumista em que vivemos. Ouvir um vinil com seu chiado característico, o cuidado com a agulha e o trocar de lado deixaram de ser um empecilho,  a ser um ritual de conexão com o presente, de se curtir mais o momento e compartilhar experiências presenciais com os outros.

É claro que o vinil não voltou para dominar o mercado, mas é uma mais que bem vinda opção secundária, que nos mostra que as mídias podem coexistir. As vendas aumentaram, novas fábricas foram construídas, coletâneas clássicas são relançadas com frequência e o vinil passa a encantar quem não conhecia e reconquistar  uma pequena, mas respeitável fatia do mercado.

Seria essa uma tendência para o CD,  que hoje encara um fim iminente, para  dar a volta por cima? O vinil já ocupou totalmente esse espaço da nostalgia? Não sabemos. Assim como os discos, classificados pela unidade de RPM (Rotações Por Minuto, ou Revoluções Por Minuto, no caso da icônica banda), vamos precisar de mais algumas rotações do planeta para descobrir o que a próxima revolução está guardando para a música. O negócio é soltar o play e deixar a roda rodar.